Afinal, quem dá aula de jornalismo?

Assim como havia feito com os alunos, fui direto aos sites das principais universidades para obter dados a respeito dos professores. É interessante ressaltar o quanto são completas muitas das páginas dedicadas aos docentes: o site de Columbia, por exemplo, apresenta não apenas uma lista de professores acompanhada do currículo completo de cada um, mas também seus números de telefone e endereços de e-mail, tornando muito mais simples contatá-los (ainda não obtive resposta de nenhum, mas há esperança…).

A primeira página que visitei foi a de Berkeley, e de início notei um número de professores que me pareceu reduzidíssimo: apenas 16 nomes constam na lista do corpo docente permanente. Porém, este contingente é completado pelos professores associados e visitantes, que são 36, provenientes de diversas regiões do mundo. Segundo o próprio site, estes professores são trazidos para ministrar palestras sobre temas específicos ou para trabalharem nos seus próprios projetos e compartilhá-los com os alunos, proporcionando um intercâmbio muito rico na formação destes.

Como eu já havia mencionado no post passado, o diploma de mestrado ou doutorado não consta como obrigatório em nenhuma das faculdades pesquisadas. Fazendo um levantamento dos professores de Berkeley e Columbia, 25 dos 59 docentes declaram ter diploma de mestrado, e apenas 4 de doutorado. Por outro lado, a experiência profissional parece ser extremamente valorizada: apenas seis destes professores não têm experiência de redação, e mesmo assim são os que ministram disciplinas mais específicas ou ligadas a outras áreas, como História do Jornalismo ou matérias ligadas à tecnologia.

Numa visão mais geral, segundo a Annual Survey of Journalism and Mass Communication, em 2009 havia 6725 professores em tempo integral e 4820 em meio período nas faculdades de jornalismo e comunicação. Uma vez que foram consideradas 484 escolas na pesquisa, o total de professores por escola fica em 23,9 (13,9 em tempo integral e 10 em meio período) – novamente, parece um número pequeno, levando em conta que muitas destas escolas oferecem graduação, mestrado e doutorado, mas acredito que isto seja principalmente por conta do costume de convidar professores de outras instituições.

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Jornalismo antes da faculdade

Depois de falar sobre quem estuda, decidi partir para o perfil de quem ensina jornalismo e comunicação. Para isso, a primeira pergunta que propus foi: as faculdades escolhem os professores com base na sua experiência de mercado ou no seu perfil acadêmico?

Analisando alguns currículos, percebi que grande parte das escolas de jornalismo não exigem de seus docentes nem o mestrado, muito menos o doutorado. Acabei encontrando, porém, uma certificação no ensino de jornalismo válida por 5 anos, fornecida pela Journalism Education Association.

No entanto, ao analisar esta certificação com mais cuidado, percebi que ela não era voltada aos professores das grandes universidades – afinal, seus currículos recheados de The New York Times, BBC, Time Magazine e outros veículos do mesmo calibre falam por si mesmos -, e sim àqueles que precisavam comprovar conhecimento em jornalismo para se mostrarem qualificados a dar aulas no Ensino Médio. Pesquisando mais a fundo, notei que as experiências com o jornalismo antes da faculdade são bastante comuns nas escolas americanas. Relacionando esta informação aos posts anteriores, a respeito da formação prévia dos estudantes de mestrado e doutorado em jornalismo, penso que a experiência com a prática jornalística dentro das escolas tenha permitido que estudantes formados em outras áreas entrassem no mercado da comunicação, só depois optando por voltar ao estudo do jornalismo na pós-graduação. Faz sentido? O que acham?

Annual Survey of Journalism and Mass Communication

Durante minhas andanças por sites norteamericanos de jornalismo em busca de dados que pudessem me ajudar a traçar um perfil de alunos e professores de comunicação nos EUA e Canadá, acabei caindo numa pesquisa que se mostrou essencial para a minha análise: a Annual Survey of Journalism and Mass Communication. Sob responsabilidade do professor Lee B. Becker, da University of Georgia, a pesquisa – como o próprio nome já diz – reúne anualmente dados sobre todas as escolas de jornalismo e comunicação dos Estados Unidos.

O site do estudo é extremamente completo: é possível encontrar arquivos destes dados desde 1996, a respeito da graduação, pós-graduação e temas relacionados, como uma pesquisa junto a editores e diretores de noticiários, um estudo sobre o impacto das habilidades tecnológicas na inserção no mercado de trabalho, entre outros. Todos os relatórios, gráficos e dados numéricos são disponibilizados gratuitamente. A partir dos dados mais recentes, de 2009, é possível tirar algumas conclusões: por exemplo, a de que a tendência dos estudantes nos últimos anos vem sendo a de abandonar a graduação em carreiras mais específicas em favor de uma formação mais ampla no campo da comunicação em geral, o que pode ser um reflexo da  saturação do mercado de trabalho para os jornalistas – uma formação mais abrangente seria uma alternativa para estar habilitado a diversos postos de trabalho.

Outra informação relevante é que as matrículas em geral vêm diminuindo – a queda foi discreta em 2009, de apenas 0.5%, mas o número não apresenta crescimento significativo há anos. Este dado pode estar relacionado ao que foi discutido no post passado: o fato de que estudantes formados em outras áreas escolhem o jornalismo como profissão. Dados como este serão analisados com mais profundidade no meu relatório final.

Alunos de Jornalismo em Berkeley – parte 2

Analisei os 79 currículos de alunos disponíveis no site do mestrado em Jornalismo de Berkeley para ter uma ideia do perfil dos alunos do curso. Primeiro, analisei o nível de internacionalização:

Dos 79 alunos, apenas seis (ou aproximadamente 8%) eram estrangeiros, provenientes do México, China, Sudão, Índia, Holanda e Coreia do Sul. Outros 11 (14%) declaram ter feito intercâmbio, a maioria para países de língua espanhola (Argentina, Espanha, México e República Dominicana).

Depois de analisar os países dos quais vinham os alunos, resolvi partir para as graduações nas quais eles se formaram. Primeiro, uma pequena explicação: nos EUA existem dois grandes tipos de graduação – o Bachelor of Arts, focado nas humanidades e na pesquisa qualitativa, e o Bachelor of Science, com uma carga maior de ciências exatas e análise quantitativa. Dentro de cada um, o aluno pode escolher um foco específico. O que determina se o bacharelado se enquadra em Arts ou Science não é a carreira em si, mas o direcionamento que o aluno escolhe dar para ela: entre os currículos que analisei, encontrei um com Bachelor of Arts e habilitação (ou major) em neurociência e outro com Bachelor of Science e habilitação em jornalismo, por exemplo. Parece estranho a princípio, mas depende do tipo de disciplina que o aluno opta por cursar.

Pois bem. Como já era esperado, a grande maioria dos mestrandos em Jornalismo de Berkeley vem das ciências humanas: apenas seis alunos se formaram com um Bachelor of Science. Já as habilitações de cada um são tão diversas quanto prometia o site da faculdade. É difícil encontrar dois alunos com majors de mesmo nome, não só porque eles vêm de muitas faculdades diferentes, mas também porque podem escolher habilitações bastante específicas. Para facilitar a visualização, agrupei-os em nove grandes áreas:

Grande parte dos alunos já tem um passado acadêmico na comunicação ou no jornalismo (que, juntos, somam 39% do total), mas é interessante notar que há graduados em áreas totalmente diversas – em “Outros”, estão alunos de Matemática, Arquitetura, Estudos Criativos, Religião. Todos, entretanto, têm experiência profissional como jornalistas, e a maioria tem um currículo bastante amplo, passando por veículos grandes e pequenos, pelo jornalismo impresso, online, no rádio e na TV.

Alunos de Jornalismo em Berkeley – parte 1

A Universidade de Berkeley oferece um curso de mestrado em jornalismo com duração de dois anos. O site oficial da faculdade explica que não é preciso ter cursado determinada área na graduação para entrar no programa: a escola “admite candidatos com uma ampla variedade de diplomas de bacharelado, de Antropologia a Zoologia”. A página informa, ainda, que espera-se do candidato um bom desempenho acadêmico na graduação, mas, acima de tudo, experiência na prática do jornalismo: “Candidatos que demonstrem habilidades sólidas de reportagem e uma forte ética no trabalho são favorecidos. Os candidatos mais impressionantes contam histórias que não haviam sido contadas antes, fornecem valor significativo para a comunidade, não têm preconceitos pessoais, mostram pesquisa meticulosa, habilidades de entrevista afiadas, integridade e bom senso”. Sem experiência profissional, as chances de admissão são pequenas.

O edital menciona, ainda, um programa especial para alunos estrangeiros: eles podem se candidatar normalmente se tiverem matérias publicadas em inglês; se tiverem experiência jornalística apenas na sua língua de origem, podem se inscrever no chamado Visiting Scholar Program, que dura apenas um ano e não dá o título de mestrado. Para isso, eles devem enviar, além do currículo, o certificado de proficiência em inglês pelo TOEFL ou IELTS.

A universidade disponibiliza, no mesmo site, um espaço para que os alunos do mestrado publiquem informações pessoais, incluindo uma pequena biografia, formação acadêmica, experiência profissional e links para matérias já publicadas. 79 alunos disponibilizaram ali algumas informações sobre sua formação prévia nestes; vou aproveitar estes dados para tirar algumas conclusões sobre o curso no próximo post.

Por onde começar?

Os meios de comunicação norteamericanos são objeto de estudo obrigatório para qualquer um que se interesse pelo jornalismo. Veículos importantes como o New York Times, o Wall Street Journal, a Time e a Newsweek serviram (e ainda servem) de modelo para inúmeras publicações ao redor do mundo, e os EUA e Canadá contam ainda com experiências importantes em outras áreas, como nas mídias digitais e nos observatórios de jornalismo.

A curiosidade em saber quem é que faz estes meios de comunicação tão importantes leva, antes, a outras perguntas: quem é que estuda o jornalismo por lá? De onde vêm os alunos? A maioria é formada por jovens buscando entrar no mercado de trabalho ou por pessoas graduadas em outras áreas que buscam uma segunda graduação? E quem ensina? Os professores vêm do mercado ou da academia? Têm produção científica relevante ou concentram sua atuação nos grandes jornais?

São perguntas como estas que eu vou procurar responder durante os próximos meses. É a partir delas que este blog, somado aos dos meus colegas Alexandre Dall’Ara, Beatriz Amendola, Marcela Gonsalves e Marina Ribeiro, vai buscar traçar um panorama do ensino do jornalismo na América do Norte. Por isso o 101: aqui vou partir desde os dados mais básicos, como o número de estudantes e a relação professor/aluno em cada universidade, para delinear este perfil.